PERSONAGENS
Nos últimos meses, celebridades de diversos segmentos, admitiram recorrer ao Ozempic, desenvolvido contra a diabetes tipo 2, para perseguir outro objetivo: perder peso (um efeito secundário da droga).
LUCRO
Em 2022, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk faturou US$ 8,5 bilhões com o Ozempic, que mesmo custando caro (por volta de R$ 1.000 mensais) ficou em falta nas farmácias dos EUA e do Brasil.
REDES SOCIAIS
O Tik Tok está cheio de vídeos de pessoas mostrando o corpo antes e depois do remédio, que já rendeu até o primeiro meme nas redes sociais - o chamado "rosto de Ozempic" em que as pessoas ficam com a cara chupada devido ao rápido emagrecimento.
MAIS FORTE
Em junho de 2021, o fabricante obteve aprovação da FDA para lançar outro produto, o Wegovy, com o mesmo princípio ativo do Ozempic, a semaglutida - a diferença é que ele tem doses mais altas, e é especificamente indicado para combater obesidade ou sobrepeso.
CHEGANDO
O medicamento já está no mercado americano, e deve chegar ao Brasil agora no segundo semestre. Em janeiro deste ano teve a comercialização autorizada pela Anvisa.
CONCORRÊNCIA
As ações da Novo Nordisk dobraram de valor nos últimos dois anos, e agora os concorrentes tentam pegar carona nessa onda: Pfizer e Novartis estão desenvolvendo drogas do tipo, e a Eli Lilly pretende começar a vender o Mounjaro (tirzepatida), seu produto antidiabetes, como emagrecedor.
PREVISÃO
Até o final da década, as novas drogas antiobesidade devem alcançar US$ 54 bilhões de faturamento anual, segundo estimativa do banco americano Morgan Stanley.
PLANETA
Elas são a resposta da indústria farmacêutica para o engordamento do mundo, que já alcançou proporções alarmantes: nos EUA, 42% dos adultos são obesos e 30% estão acima do peso (no Brasil, 20% são obesos e 57% têm sobrepeso).
VAGO
Mas a euforia em torno do Ozempic esconde dois pontos críticos. Geralmente as reportagens sobre o remédio informam que ele pode causar diarreia e enjoo, e não deve ser usado sem orientação médica, mas param por ai.
VITALÍCIO
Só que há questões mais importantes. A pessoa tem que tomar a semaglutida pelo resto da vida, ou engordará de novo.
PERIGO
E essa droga, assim como outras de ação similar, tem uma relação mal resolvida com o perigo de câncer - tanto que sua bula traz uma advertência sobre o risco do surgimento de tumores na tireoide.
AÇÃO
Os hormônios estão entre as coisas mais fascinantes do corpo humano: mesmo presentes em concentrações ínfimas, da ordem dos picogramas (trilionésimos de grama), eles controlam várias funções do organismo. E o GLP-1, ou "peptídeo semelhante ao glucagon-1", é um dos mais incríveis.
AÇÃO 2
Quando você come alguma coisa, os pedaços da comida vão descendo até cair no intestino. Assim que isso acontece, o corpo começa a liberar GLP-1, que atua sobre vários órgãos (ele tem esse nome porque sua molécula é parecida com a de outro hormônio, o glucagon, embora sua função seja diferente).
AÇÃO 3
O GLP-1 manda o pâncreas aumentar a produção de insulina - porque você acabou de comer, e o nível de glicose no seu sangue vai aumentar. Diz para o estômago segurar um pouco os alimentos que ainda estiverem dentro dele, pois isso gera a sensação de saciedade.
AÇÃO 4
Também penetra no cérebro e vai até o hipotálamo, onde se conecta a receptores específicos e desliga os sinais de fome. Resumindo: esse hormônio ajusta o corpo para a digestão, e faz você parar de comer.
AÇÃO 5
O corpo produz duas ondas dele, 15 e 30 minutos após a refeição. Mas o GLP-1 dura pouco. Sua "meia-vida" é de apenas 120 segundos, ou seja, dois minutos depois que ele é liberado, metade já se decompôs (o processo continua até que, em 30 minutos, 99% já sumiu).
AÇÃO 6
Isso acontece porque, logo depois de soltar o GLP-1, o organismo também libera a arqui-inimiga dele: a dipeptidil peptidase-4, uma enzima que quebra as moléculas desse hormônio. O Ozempic e similares são versões artificiais do GLP-1, com uma diferença: suas moléculas foram alteradas em laboratório, e por isso resistem à ação da enzima destruidora.
ATUAÇÃO DO OZEMPIC
Ao contrário do GLP-1 natural, a versão sintética dura muito: a "meia-vida" da semaglutida (princípio ativo do Ozempic) é de sete dias (1). Ou seja, ela age no organismo 5 mil vezes mais tempo que o hormônio natural.
JÁ EXISTIA
A semaglutida não foi o primeiro GLP-1 artificial a chegar ao mercado: antes vieram dois outros, a exenatida e a liraglutida. A diferença é que a semaglutida é a primeira droga de longa duração, que só precisa ser aplicada uma vez por semana.
CONCORRÊNCIA
Essa classe de remédios (conhecidos como "análogos" ou "agonistas" de GLP- 1) é útil contra a diabetes porque eles aumentam consistentemente a produção de insulina no organismo. O emagrecimento é só um efeito secundário. Costuma ser intenso.

EFEITO
Estudos com o Wegovy a versão "mais forte" do Ozempic, indicada para obesidade - mostraram uma redução média de 14,9% no peso corporal após um ano e meio de uso do remédio (contra 2,4% das pessoas que tomaram placebo).
SIGNIFICANTE
É bastante coisa: numa pessoa de 70 kg, por exemplo, dá 10,5 kg a menos na balança. Os testes clínicos do Mounjaro (tirzepatida), do laboratório Lilly. apontaram um efeito similar, com perda de 14,7% do peso corporal em um ano e meio.
LIMITE
Esse é o efeito máximo de cada remédio; o peso se estabiliza nesse patamar, e não cai mais. Aí você pode parar de tomar o medicamento, é só dar uma maneirada na alimentação para manter o novo corpo, certo? Errado.
PESQUISA
Um estudo publicado por cientistas dos EUA, do Japão e de vários países europeus acompanhou 327 adultos que haviam usado a semaglutida durante um ano e meio (2). Enquanto eles estavam tomando o remédio, perderam em média 17,3% do peso. Até mais que o esperado.
PESQUISA 2
Mas, assim que pararam, voltaram a engordar: após um ano sem a semaglutida, já tinham recuperado 11,6% da massa corporal. Dois terços do que tinham emagrecido.
PESQUISA 3
E as pessoas só foram monitoradas nos primeiros 12 meses sem o remédio. Se o acompanhamento tivesse continuado por mais tempo, o ganho de peso teria sido maior (na reta final do estudo, os voluntários seguiam engordando, ainda que não no ritmo explosivo dos primeiros meses).
PERIGO
O Ozempic e seus similares são remédios de uso contínuo. Isso não é necessariamente um problema - muitos medicamentos, como os que tratam hipertensão e colesterol, também precisam ser tomados "para sempre". Ocorre que, ao contrário deles, os análogos de GLP-1 têm um risco relevante.
ALERTA
Na bula americana do Ozempic, do Wegovy e do Mounjaro, a primeira coisa que aparece, logo abaixo do nome do remédio, é a chamada "black box warning": um retângulo preto com advertências em negrito dentro, exigido pela FDA em medicamentos que envolvam risco de morte.
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ALERTA 2
Nos três casos, o texto é praticamente idêntico: afirma que a substância "causa câncer das células C da tireóide em ratos", e que "a relevância [disso] em humanos não foi determinada". Finaliza dizendo que a droga é contraindicada em pessoas com histórico familiar de câncer de tireoide ou "neoplasia endócrina primária tipo 2" (uma mutação genética que predispõe a esse tipo de tumor).
ALERTA 3
Essas advertências constam da bula profissional, destinada a médicos. Nos EUA, as bulas para os pacientes são ainda mais diretas - a do Ozempic, por exemplo, orienta a pessoa a falar com o médico se aparecer "um calombo ou inchaço no pescoço, voz arranhada, dificuldade em engolir ou falta de fölego", pois "podem ser sintomas de câncer na tireoide".
ALERTA 4
Em seguida, traz uma frase que chama a atenção pelo tom indefinido: "Não é sabido se Ozempic irá causar tumores de tireoide, ou um tipo de câncer chamado carcinoma medular de tireoide (MTC) em humanos".
APROVAÇÃO IRREGULAR ?
Você deve estar pensando: como assim "não é sabido" se causa câncer ou não? Como o remédio foi aprovado mesmo com essa incerteza? Por que o problema é na tireoide? E qual é o real nível de risco? Vamos lá.
COBAIAS
O GLP-1 atua sobre o pâncreas, o fígado e o cérebro, mas não só: outros órgãos também têm receptores desse hormônio. Ele age na língua, onde parece regular a sensibilidade a sabores doces (3), e na tireoide - mais precisamente nas células parafoliculares, ou células C (que têm esse nome porque sua função é produzir calcitonina, um hormônio que controla a quantidade de cálcio no sangue).
COBAIAS 2
Lembra que o GLP-1 sintético fica um tempão agindo no organismo, muito mais do que o natural? Então: se você injetá-lo em ratos, as células da tireóide serão extremamente estimuladas. Isso acaba gerando mutações, e tumores.
COBAIAS 3
Esse mecanismo foi demonstrado pela primeira vez com a liraglutida, em 2010, e também com outros "análogos de GLP-1" - é por isso que elas trazem as advertências na bula. Mas o mesmo estudo que descobriu o efeito em ratos testou a liraglutida em macacos, que receberam doses altíssimas da droga (60 vezes mais que a usada em humanos) durante 20 meses. E os primatas não desenvolveram câncer.
COBAIAS 4
O estudo também observou os níveis de calcitonina em pacientes que usavam o remédio se eles estivessem aumentados, seria um sinal de problemas na tireoide. Mas não estavam. Nos anos seguintes, outros trabalhos científicos acompanharam pessoas que usaram medicamentos do tipo. E não detectaram aumento na incidência de tumores.
EXPLICAÇÃO
"Os seres humanos têm muito menos células C do que os ratos, e as células C humanas têm uma expressão muito baixa do receptor GLP-1", explica a médica Rachel Pessah-Pollack, pesquisadora da Universidade de Nova York e especialista em tireoide, em um artigo sobre o tema.
PONTUAL
Em pessoas, os remédios análogos de GLP-1 aparentemente não têm o poder de sobrecarregar a tireoide. "Os tumores em roedores são causados por um mecanismo específico, e não podem ser extrapolados para humanos", afirma a médica Cynthia Valério, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
PONTUAL 2
"Nos estudos com a semaglutida, em cerca de 25 mil pacientes, não tivemos correlação, nem aumento de incidência, de câncer de páncreas ou tireoide", diz Erika de Souza, gerente médica de obesidade da Novo Nordisk.
NO BRASIL
"Nos programas clínicos de fase 3 da semaglutida, com exposições de até dois anos, nenhum caso de carcinoma medular da tireoide foi observado em mais de 7.800 participantes. Portanto [...] a relevância dos tumores de células C de roedores em seres humanos é considerada baixa", afirma o parecer técnico da Anvisa sobre o Wegovy (7).
OBSERVAÇÃO
Se é assim, por que as bulas têm as advertências a todos esses estudos, também há outros que têm? É que, paralelamente apontaram, sim, relação entre as drogas GLP-1 e maior incidência de câncer em pessoas. O primeiro foi publicado em 2011 por cientistas da Universidade da Califórnia (8), e mostrou risco aumentado de tumores de pâncreas e tireóide. Isso não foi confirmado por outros estudos, realizados nos anos seguintes.
ANO PASSADO
Até que, em outubro de 2022, a dúvida voltou. Um grupo de cientistas chineses mergulhou no Adverse Event Report System, banco de dados em que a FDA registra problemas causados por medicamentos. Eles encontraram sinais significativos de certos tumores, incluindo cânceres de tireóide e pâncreas".
MAIS OUTRO
Outro estudo em fevereiro deste ano reforçou as desconfianças. Ele saiu na Diabetes Care, a revista científica da Associação Americana de Diabetes, e foi elaborado por pesquisadores de duas universidades francesas (10). Eles analisaram os dados de 47 mil pacientes, que tomaram exenatida ou liraglutida por algum período entre 2006 e 2018.
RELATO
Conclusão: "o uso dos agonistas de GLP-1 por um a três anos foi associado ao aumento de risco de todos os tipos de câncer de tireoide". A incidência desses tumores foi 58% maior; considerando apenas o câncer medular de tireoide (um subtipo causado pelas células C, aquelas mesmas que são afetadas pelos remédios emagrecedores), 78% maior.

REALIDADE
Apesar dos estudos, por outro lado, a obesidade em si também eleva o risco de vários tipos de câncer e outras doenças. Ela mata, por causas diretas ou indiretas, 4 milhões de pessoas por ano no mundo, segundo estimativa da OMS.
FINAL
Conclusão: não dá para afirmar que o Ozempic e similares sejam perigosos, mas também não é possível cravar que não há o menor problema. Tanto que as bulas trazem as advertências, e o fabricante está fazendo mais dois estudos com a semaglutida: um sobre tumores de pâncreas, que ficará pronto em dezembro de 2024, e outro sobre câncer de tireoide, que vai até 2035.
FINAL 2
Tudo conspira para que o mundo continue ganhando peso. A World Obesity Federation prevê que, em 2035, metade da população com mais de cinco anos de idade será obesa. Os remédios antiobesidade podem ajudar a combater isso. Mas não devem ser encarados como uma saída mágica.
Fonte: Revista Superinteressante
GOVERNO DE RONDÔNIA
O governador Marcos Rocha está alinhado com outros governadores em defesa da reforma tributária discutida no Congresso Nacional. Uma das principais mudanças contempladas na proposta, é que o imposto seja cobrado no destino de bem ou serviço, e não mais na origem, o que poderia impactar negativamente na economia dos estados produtores; como é o caso de Rondônia.
AUTONOMIA
Rocha aponta que isso deixaria os estados sem autonomia para usar as receitas geradas por impostos em investimentos nas áreas estratégicas para a população, como saúde, educação e segurança pública.
DOIS BRASIS
O cenário fica mais claro ao ser observado com base no panorama apresentado pela consultoria MB Associados, que apresenta os dois ‘‘Brasis’’, um dependente dos setores urbanos, como é o caso do Sudeste, e o outro gerador de commodities, produtos de origem no setor primário da economia; como a agricultura e pecuária, abrangendo as regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, englobando também Rondônia, que teve um salto de R$ 9 bilhões para mais de R$ 20 bilhões, no Valor Bruto da Produção Agropecuária- VBP de 2019 para 2023.
PASSARÁ DE 5%
A produção agrícola é tão forte nessa parte do país, que a consultoria MB Associados projeta que, com o impulso da safra agrícola, a economia deve crescer acima de 5% nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, em 2023. Mas a migração dos impostos dos locais de origem para os de consumo traz preocupação aos estados que têm um desenvolvimento agrícola forte.
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