O desaparecimento de uma celebridade da internet após um encontro com jovens aspirantes a cineastas de periferia dá início a uma trama que conecta cultura digital, produção audiovisual independente e investigação policial. O que começa como a tentativa de realizar um filme de baixo orçamento ganha contornos de mistério e expõe as contradições entre fama, exposição pública e a realidade do cinema brasileiro independente.
Essa é a premissa de De tudo que poderia te deixar, novo longa-metragem de comédia e aventura dirigido por Beto Oliveira, no qual Laura Rauseo interpreta Any Star, uma personalidade digital que vê sua rotina sair do controle repentinamente. A trama aproxima o universo dos influenciadores digitais da realidade de jovens que tentam transformar a paixão pelo cinema em profissão, apesar das barreiras econômicas e sociais.
A escolha de Laura para viver Any Star marca uma nova etapa na carreira da atriz. Conhecida por interpretar Magali em Turma da Mônica: Laços (2019), Turma da Mônica: Lições (2021) e na série da franquia para o Globoplay, ela agora assume uma personagem ligada à cultura dos influenciadores, aos eventos geek e à construção de imagens públicas nas redes sociais. A diferença entre as duas personagens chama a atenção: enquanto Magali faz parte de um universo consagrado dos quadrinhos brasileiros, Any Star representa uma geração de celebridades cuja popularidade é construída diante das câmeras dos celulares.
No filme, a personagem está a caminho de um evento geek quando um problema com seu carro a coloca no caminho de Jeferson, jovem cineasta negro interpretado por Cícero Lucas, conhecido pelo trabalho em Marte Um, e de sua irmã Adélia, vivida pela atriz e cantora Becky Moreira.
A relação de Laura com o cinema começou cedo. Aos 11 anos, ela estreou em longas-metragens como Magali em Turma da Mônica: Laços, dirigido por Daniel Rezende, após um processo seletivo que reuniu mais de 7.500 candidatos. O trabalho abriu caminho para a sequência Turma da Mônica: Lições e para outras experiências na televisão. Em De tudo que poderia te deixar, a atriz encontra um desafio diferente: interpretar uma celebridade que desperta curiosidade tanto pela imagem que projeta quanto pelo que revela quando os acontecimentos escapam ao seu controle. A personagem permite explorar o contraste entre a vida cuidadosamente apresentada nos feeds e reels e a realidade que existe por trás da exposição pública, um tema que atravessa o cotidiano de jovens conectados às redes sociais.
Mas a história vai além da presença de uma estrela digital. Jeferson produz filmes de forma independente e os exibe em um cineclube comunitário. Ao lado de Adélia, ele tenta encontrar caminhos para entrar em uma indústria na qual talento e vontade nem sempre são suficientes para viabilizar uma produção. O encontro com Any Star coloca esse sonho diante de uma oportunidade inesperada e transforma a realização de um filme amador no centro de uma trama que combina humor, aventura e investigação.
O filme é uma grande homenagem ao cinema brasileiro e reúne no elenco Gilda Nomacce, Darlan Cunha, Ary França, Nizo Neto e Giu Nassa, entre outros importantes nomes do cinema independente, aproximando diferentes gerações de artistas e referências da cultura audiovisual brasileira.
O próprio cinema também se torna personagem. A proposta do diretor Beto Oliveira dialoga com Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado, em que uma comunidade se mobiliza para produzir uma obra audiovisual, e com A Noite Americana, de François Truffaut, clássico que revela os bastidores de uma filmagem. As referências ajudam a situar De tudo que poderia te deixar em uma tradição de histórias que transformam o ato de fazer cinema em matéria narrativa. Aqui, porém, o cenário é atravessado pelas redes sociais, pela cultura geek e pelas dificuldades de jovens que tentam construir uma carreira sem necessariamente dispor de equipamentos, recursos financeiros ou acesso aos espaços tradicionais de produção.
A história também toca em uma questão importante para o mercado audiovisual brasileiro: o espaço destinado a filmes adolescentes e familiares. Produzir uma obra infantojuvenil envolve desafios que vão além da realização: financiamento, distribuição, presença nas salas, divulgação e acesso às plataformas influenciam a possibilidade de alcançar o público. Por isso, narrativas que combinam humor, aventura, personagens jovens e referências reconhecíveis da cultura brasileira podem ampliar o repertório disponível para essa faixa de espectadores.
O desafio não está apenas em produzir mais filmes, mas em criar condições para que essas histórias cheguem ao público e encontrem espaço em um mercado competitivo.
Beto Oliveira, roteirista e cineasta cuja trajetória também se volta à explorar a memória negra e as histórias pouco representadas no audiovisual brasileiro, iniciou o projeto no Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual (LANANI), iniciativa promovida pela Globo em parceria com a Festa Literária das Periferias (Flup), com mentoria da autora e roteirista Carla Faour (Segunda Chamada, O Concurso).
Em De tudo que poderia te deixar, o diretor desloca o olhar para o presente sem abandonar o interesse por personagens e experiências que não ocupam o centro das telas. A comédia se torna um caminho para discutir representatividade, acesso à produção audiovisual e o desejo de contar histórias próprias.
As filmagens foram concluídas no segundo semestre de 2025, e o filme tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2027. Com Laura Rauseo em um papel diferente de seus trabalhos anteriores, um elenco de diferentes gerações e uma história que transforma o sonho de fazer cinema em aventura, De tudo que poderia te deixar aproxima duas questões contemporâneas: quem consegue conquistar a atenção do público e quem tem a oportunidade de contar suas próprias histórias na tela.
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