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Da estatística à vida real, EJA reduz o analfabetismo e reacende sonhos de quem decide voltar a estudar no Acre

Tomar o ônibus, usar um aplicativo, localizar-se na cidade ou até dirigir um veículo podem parecer tarefas simples, mas se tornam verdadeiros desaf...

26/10/2026 08h19
Por: Redação Fonte: Secom Acre
Foto: Reprodução/Secom Acre
Foto: Reprodução/Secom Acre

Tomar o ônibus, usar um aplicativo, localizar-se na cidade ou até dirigir um veículo podem parecer tarefas simples, mas se tornam verdadeiros desafios para quem não sabe ler. É nesse cenário que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) se consolida como um pilar essencial para milhares de acreanos que buscam concluir os estudos e conquistar mais autonomia.

A modalidade atende jovens a partir de 15 anos, no ensino fundamental, e de 18 anos, no ensino médio, oferecendo uma segunda chance para quem precisou interromper a vida escolar.

Aprender a ler e escrever reacende sonhos adiados. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Aprender a ler e escrever reacende sonhos adiados. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

No Acre, a EJA está presente em todos os municípios, um diferencial nacional, e vai além da certificação escolar. Além de concluir etapas da educação básica, os estudantes também têm acesso a cursos profissionalizantes, ampliando oportunidades de inserção no mercado de trabalho e transformando realidades que, por muito tempo, foram marcadas pela exclusão educacional.

O reflexo dessa política aparece nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), que mostram que a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais, no Acre, caiu de 9,4% em 2024 para 8,9% em 2025.

A superação do analfabetismo vem sendo conduzida pelo Ministério da Educação (MEC) por meio de uma série de ações vinculadas ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA (Pacto EJA).

O programa reúne iniciativas colaborativas implementadas em parceria com estados e municípios, como o Cadastro da Educação de Jovens e Adultos (CadEJA), plataforma digital criada para facilitar o acesso de pessoas que não concluíram a educação básica na idade regular.

Ludemilha lembra que uma das situações mais dolorosas para ela era participar das celebrações religiosas sem conseguir acompanhar os textos. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Ludemilha lembra que uma das situações mais dolorosas para ela era participar das celebrações religiosas sem conseguir acompanhar os textos. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Segundo a plataforma, o Acre registra 21.041 matrículas na EJA, das quais 20.535 são da rede pública. Ao todo, 341 escolas oferecem a modalidade no estado.

Retomada de sonhos interrompidos

Aos 65 anos, Ludemilha Teixeira decidiu retomar um sonho suspenso por décadas, que era aprender a ler. Mãe de quatro filhos, avó e trabalhadora, a estudante conta que só agora, sem as responsabilidades que a acompanharam por toda a vida, conseguiu voltar para a sala de aula.

“Eu não tive essa oportunidade quando era mais nova. Depois que cheguei nesta idade, sem preocupação de filho pequeno e de marido, resolvi voltar. É muito difícil você ir aos lugares sem saber os pontos de referência, os nomes dos ônibus. Isso tudo me fez voltar a estudar”, relata.

Ludemilha lembra que uma das situações mais dolorosas que enfrentava era participar das celebrações religiosas sem conseguir acompanhar os textos: “Eu chegava na igreja, todo mundo pegava o folhetinho e acompanhava a liturgia. Eu achava muito triste; ficava ali só porque estava no meio, mas não sabia ler”.

Alunos sonham em aprender a ler e escrever para assinar seus documentos. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Alunos sonham em aprender a ler e escrever para assinar seus documentos. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Hoje, a nova alfabetizada celebra cada pequena conquista. A primeira veio logo após começar a decifrar as palavras, quando a coordenadora da igreja a convidou para ler as preces durante a missa. “Fiquei nervosa, disse que se gaguejasse era porque estava aprendendo e elas me apoiaram. Eu li, graças a Deus”, relata.

A trajetória de Ludemilha explica por que a escola precisou esperar. Após se separar do pai dos seus filhos, assumiu sozinha todos os deveres da casa: “Eu fui mãe, fui pai, fui tudo pra eles. Vendia café da manhã na rua para sustentar e educar meus filhos”.

O reconhecimento veio anos depois. “No meu aniversário, eles sempre dizem que eu fui tudo pra eles. Meu neto fala: ‘Se tu não existisse, o que seria de mim?’”, conta.

Hoje, Ludemilha divide a sala de aula com o marido, Ednaldo de Deus, com quem está há três anos. Às vezes, precisa insistir para que não desista: “Ele faz tipo criança. Eu chego cansada e digo pra fazermos o dever. Ele quer ver televisão. Aí eu digo: isso vai te ajudar muito”.

Depois de se submeter a uma cirurgia nos olhos, Ludemilha ficou um ano sem estudar. Este ano, voltou com determinação. “Agora vou até o fim”, enfatiza.

Atividades simples do dia a dia se tornam um desafio para quem não sabe ler. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Atividades simples do dia a dia se tornam um desafio para quem não sabe ler. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

O sonho da CNH

Ednaldo de Deus trabalha como gari e também carrega o sonho de obter a carteira de habilitação. Diz que o processo de alfabetização tem sido desafiador, mas motivo de orgulho. Na sala de aula, os olhos cansados após um dia inteiro de trabalho permanecem atentos ao conteúdo, numa demonstração de esforço e determinação.

“Eu já leio algumas coisas, mas ainda estou devagar. Tem palavras que eu não digo, não sei ainda. Não tô preparado pra ler tudo. Escrever também é difícil. Tem palavra que eu faço, tem palavra que não faço. Mas, com fé em Deus, vou conseguir”, destaca.

Antes de voltar à escola, o alfabetizando enfrentava situações simples para a maioria das pessoas, mas aflitivas para quem não domina a leitura. Por não saber sequer assinar o próprio nome, dependia de ajuda até para pegar o ônibus.

Ednaldo de Deus sonha em obter a CNH e comprar uma moto. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Ednaldo de Deus sonha em obter a CNH e comprar uma moto. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

“Eu não sabia nem assinar meu nome. Chegava no terminal, via o papel do ônibus e não entendia nada. Tinha que pedir ajuda. Uns ajudavam, outros viravam as costas”, recorda.

Hoje, Ednaldo sabe que a alfabetização é o caminho para conquistar a habilitação e, quem sabe, comprar sua moto ou carro. Apesar das dificuldades, o aluno da EJA já percebe avanços e tem o objetivo de dominar a leitura e a escrita: “A primeira coisa vai ser tirar a carteira. É meu sonho”.

No trabalho, a leitura também faz falta na hora de registrar o ponto eletrônico, o que faz com que muitos colegas dependam da ajuda de terceiros: “Tem uns que vêm do meu lado e colocam o dedo lá. Eu digo: ‘Rapaz, aprende a fazer teu nome’. Tem cabra de 25, 30 anos que não sabe nem assinar. Eu incentivo a vir estudar comigo”.

Para Marlene, a alfabetização é sinônimo de independência e liberdade. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Para Marlene, a alfabetização é sinônimo de independência e liberdade. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Autoestima e novos planos

Para Cecília Gomes, a alfabetização abriu espaço para um novo anseio, que é cursar uma faculdade. Aos 61 anos, aposentada e mãe de três filhos, decidiu voltar para a sala de aula depois de décadas. A escolha é a realização de um desejo que a acompanhou desde a juventude. “É um desafio. Não tive oportunidade quando era jovem porque morava no interior, com meus pais”, justifica.

Cecília perdeu o pai muito cedo e, ainda adolescente, passou a trabalhar como cuidadora de crianças. “Comecei a estudar, mas desisti. Quando a pessoa trabalha na casa dos outros, é difícil”, explica. Além disso, a vida adulta chegou rápido, pois se casou jovem e logo teve três filhos. “A gente se dedica aos filhos, fica em casa, trabalha e não faz nada pra si”, observa.

Mesmo com a rotina cheia, várias vezes Cecília buscou o sonho de retornar aos estudos. “Nunca dava certo. Uma vez tentei, mas desisti porque não consegui acompanhar”, relembra.

A virada veio depois dos 60. Viúva há quatro anos e com os filhos seguindo suas próprias vidas, decidiu que era hora de se apropriar de sua história por meio da instrução: “A gente quer fazer as coisas sem depender de ninguém”.

A alfabetização trouxe autonomia, autoestima e novos planos. “Quero continuar e, se Deus quiser, chegar a fazer uma faculdade”, planeja.

Cecília sonha em poder fazer uma faculdade ao concluir o ensino médio. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Cecília sonha em poder fazer uma faculdade ao concluir o ensino médio. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

‘Acho bonito as pessoas lendo’

Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho e às filhas, Ester de Oliveira, também de 60 anos, finalmente encontrou tempo e coragem para voltar à sala de aula. Hoje comemora cada avanço e se emociona ao falar da importância da educação.

“Me sinto muito feliz na sala de aula. É muito bom estudar. A pessoa sem estudo ‘não dá’. Mesmo com essa idade, tenho muita vontade de aprender”, revela.

Devido às dificuldades que precisou enfrentar, Ester conta que sempre fez questão de incentivar as filhas e netas a estudarem. “Minhas filhas todas conseguiram se formar”, celebra.

Atualmente Cecília já sabe o que fará quando dominar a leitura: “Meu maior desejo é aprender a ler. Eu conheço quase tudo, mas juntar as letras ainda é difícil. Meu sonho é pegar a Bíblia, botar debaixo do braço e, quando eu for pra igreja, ler. Acho tão bonito ver as pessoas lá com a Bíblia, lendo. Eu quero isso pra mim”.

Na escola, a aposentada também encontrou novas amizades: “Um chega, outro chega, e a gente vai conversando. É muito bom”.

Antônio já sabe assinar o próprio nome e agora quer assinar o documento. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Antônio já sabe assinar o próprio nome e agora quer assinar o documento. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

O orgulho de finalmente assinar o próprio nome

Aposentado, Antônio da Silva, de 76 anos, conta que a alfabetização representa a chance de recuperar autonomia, dignidade e segurança.

“Eu tô desenvolvendo, graças a Deus, a alfabetização. Eu não sabia fazer meu nome, mas hoje já sei. Agradeço muito à professora e aos amigos aqui, porque eu moro sozinho”, reporta.

Além de espaço de instrução, a sala de aula se tornou também um ambiente de hospitalidade e convivência: “Aqui me acolhem, brincam comigo, eu rio mais, me distraio. Sou bem-recebido, bem-acolhido, especialmente pela professora. Estou muito feliz por estar estudando”, relata.

Um dos maiores objetivos do aposentado é atualizar sua documentação. “Eu era analfabeto e agora não sou mais. Já faço meu nome e brevemente vou trocar minha identidade”, anuncia.

Antônio também quer aprender a usar aplicativos básicos, como WhatsApp, Uber e Pix, ferramentas que fazem falta no dia a dia. “Tenho muita vontade de aprender a mexer com aplicativo para chamar um Uber e também fazer Pix no celular. Eu viajo muito e preciso disso”, percebe.

O aposentado conta que já passou por situações difíceis em aeroportos por não saber ler. E tem viagens marcadas para Natal, São Paulo e Curitiba. “É muito ruim chegar no aeroporto de Guarulhos sem saber ler. É muito difícil. Tem que contar com a ajuda das pessoas. Eu seguia as pessoas na fé. Às vezes a pessoa sumia e eu ficava aperreado, procurando alguém pra me informar pra onde eu tinha que ir”, relata.

Com emoção, afirma que a escola mudou sua vida, provando que nunca é tarde para aprender: “Eu agradeço muito, se não fosse essa escola, não sei o que seria de mim”.

Modalidade atende jovens a partir de 15 anos, no ensino fundamental, e de 18 anos, no ensino médio, oferecendo uma segunda chance para quem precisou interromper a vida escolar. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Modalidade atende jovens a partir de 15 anos, no ensino fundamental, e de 18 anos, no ensino médio, oferecendo uma segunda chance para quem precisou interromper a vida escolar. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Liberdade

Marlene Pereira da Silva, de 66 anos, mãe de três filhos e avó de três netos, viu a educação transformar a vida de sua família. Os filhos estudaram na Escola Serafim da Silva Salgado, em Rio Branco, onde deram os primeiros passos rumo aos próprios sonhos. Agora Marlene colhe os frutos dessa trajetória: um é médico, outro atua como gestor público e a filha trabalha na área da saúde, em João Pessoa (PB).

Depois de criar os filhos, vê-los formados e encaminhados, Marlene decidiu que era a sua vez. Aos 66 anos, retornou à escola e ingressou no primeiro segmento da EJA, determinada a concluir os estudos e conquistar a tão desejada carteira de habilitação. E o detalhe é que estuda na mesma escola em que os filhos concluíram o ensino médio.

“Resolvi voltar porque sempre tive vontade de aprender. Na época em que eu queria estudar, vieram três netos pra eu cuidar. Aí não pude vir pra aula. Criei meus netos, e o tempo passou”, conta.

Incentivar os filhos a estudar foi uma missão, especialmente porque não teve a mesma oportunidade: “Eu sempre quis que eles tivessem o que eu não tive. E graças a Deus, conseguiram”.

Quando pensa no futuro, Marlene sabe exatamente o que deseja: tirar a carteira de habilitação. “Meu sonho é dirigir. Eu tenho um carro, mas quem dirige é meu filho. Eu sou apaixonada por carro. Acho que é bobagem minha, mas eu sou apaixonada. É liberdade”, afirma.

E sabe que aprender a ler é o primeiro passo para conquistar autonomia, especialmente nas tarefas do dia a dia. “A maior dificuldade é depender dos outros. Olhar o celular, passar um Pix, pagar uma conta. Tudo isso quem faz é meu filho. Eu vou tentar até saber ler, para correr atrás das coisas”, sustenta.

Rotacira sonha em dirigir seu carro assim que conseguir tirar sua CNH. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Rotacira sonha em dirigir seu carro assim que conseguir tirar sua CNH. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Autonomia como meta

Aos 61 anos, aposentada e mãe de nove filhos, Rotacira Rodrigues decidiu investir em si mesma. “Voltei pra sala de aula para aprender a ler, escrever e ter mais sabedoria. Eu não sabia nem assinar meu nome. Hoje eu já assino sozinha, em qualquer canto”, conta, orgulhosa.

Rotacira lembra que, antes de aprender a assinar, sentia vergonha até de preencher documentos simples. “Eu ficava olhando primeiro, via alguém botar o dedo ali, e pensava: ‘Meu Deus, eu queria aprender isso’. Hoje, graças a Deus, eu assino em qualquer lugar”.

Com nove filhos, muitos já formados, ela sempre viu a educação como caminho, mas não conseguiu priorizar os próprios estudos. “Desde pequena eu trabalhava no seringal. Depois fui pra colônia, casei e tive meus filhos. Chegava cansada, não tinha como estudar”.

As histórias dos alunos da EJA se encontram em um ponto comum, que é uma vida marcada por renúncia e trabalho para sustentar e cuidar da família. A modalidade surge como a ferramenta que muitos encontraram para transformar essa realidade. E, assim como Marlene, Rotacira também sonha com o dia em que poderá dirigir o próprio carro. Um objetivo que já começa a planejar com determinação.

“Meu sonho é dirigir. Já tenho metade do dinheiro guardado. Vendi minha colônia, vendi meus bois, meu filho me deu uma parte. Depositei tudo no banco. Só vou tirar quando aprender a ler e comprar meu carro”, informa.

Elenice, professora, conhece de perto é o que é ter adiar sonhos e se tornou sinônimo de acolhimento para a turma. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Elenice, professora, conhece de perto é o que é ter adiar sonhos e se tornou sinônimo de acolhimento para a turma. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Da aluna do Telecurso à professora da EJA

Quem orienta a turma é a professora Elenice de Paiva, cuja trajetória é igualmente marcada por superação e compromisso com a educação. Depois de enfrentar interrupções, desafios e uma reviravolta que transformou sua própria vida, a educadora hoje dedica seu trabalho a mudar a realidade de centenas de pessoas.

Casando-se muito jovem, precisou abandonar os estudos para cuidar da filha recém-nascida. “Eu estudava no Colégio Luísa. Engravidei cedo, ultrapassei etapas, e tive que me ausentar da escola para cuidar da minha filha”, lembra.

A decisão de retomar os estudos surgiu a partir de um gesto marcante da mãe, que a alertou sobre a necessidade de deixar um casamento que não a fazia feliz e investir na própria educação. Elenice concluiu o ensino médio pela modalidade Telecurso 2000, em 2006. Três anos depois, iniciou a faculdade de Ciências Biológicas e, em seguida, Pedagogia, na Universidade Federal do Acre (Ufac), onde se formou.

Mesmo sem ter planejado seguir carreira na educação, Elenice se identificou com a área. Antes mesmo de concluir o curso, já fazia estágios e se envolvia com a escola onde a filha estudava. Também ministrou cursos de informática básica e participou de todas as formações gratuitas oferecidas pelo governo.

Além do aprendizado, a turma, unida, compartilha experiências de vida. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Além do aprendizado, a turma, unida, compartilha experiências de vida. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Com o tempo, veio o concurso público e a oportunidade de atuar na área: “Trabalhei como professora do 1º ao 5º ano. Fiz formação em Libras, tenho duas pós-graduações e atuo como professora de Libras desde 2016”.

Em 2018, iniciou sua trajetória na EJA e se apaixonou pelo público da modalidade. “Me sinto acolhida pelos alunos e tento fazer com que também se sintam acolhidos. Eles acham que estão aprendendo comigo, mas sou eu quem aprende com as experiências deles”, verifica.

Para Elenice, acompanhar o progresso dos estudantes é uma das maiores recompensas da profissão: “É muito gratificante ver o brilho nos olhos deles. A Rotacira, por exemplo, quando lê uma palavra, fica encantada. A Marlene já chegou na fase silábica e hoje já lê, com pouquíssima dificuldade. O Ednaldo vem cansado do trabalho, mas está aqui todos os dias. Isso me motiva”.

Ester viu a educação mudar a vida das filhas e netas e hoje dedica esse tempo a si mesma. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom
Ester viu a educação mudar a vida das filhas e netas e hoje dedica esse tempo a si mesma. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

‘Conhecimento transforma’

Coordenadora da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Secretaria de Estado de Educação e Cultura, Jaiza Castro é técnica em gestão escolar. Já atuou por oito anos na modalidade na Cidade do Povo e, desde agosto do ano passado, está à frente da EJA na Escola Serafim Salgado. Para a servidora, a EJA é um espaço de pertencimento, valorização, conhecimento e partilha entre estudantes que carregam histórias de superação capazes de impactar toda a equipe.

“Homens e mulheres que estão na escola trazem uma visão de mundo muito rica. A maioria precisou abdicar dos próprios estudos para priorizar os filhos, o sustento da família. Estarem aqui é uma retomada”, contextualiza.

Jaiza reconhece que o caminho dos estudantes é marcado por desafios: “Não é fácil. É superação todos os dias. Mas eu me sinto honrada em participar disso. Minha mãe foi professora do ex-Território [do Acre] Eu a acompanhava na escola. Nunca quis fazer nada diferente da educação. O conhecimento transforma”.

E reforça que conquistas simples para quem já passou pela alfabetização são gigantes para quem está começando. “Assinar o nome, tirar uma carteira de motorista: quem já sabe ler nem percebe o quanto isso é grandioso”, salienta.

Jaiza Castro descende de uma família de educadores e hoje coordena a EJA (onde?). Para a gestora, esse trabalho é “uma missão de vida”. Foto: Dhácules Pinheiro/Secom
Jaiza Castro descende de uma família de educadores e hoje coordena a EJA (onde?). Para a gestora, esse trabalho é “uma missão de vida”. Foto: Dhácules Pinheiro/Secom

Com o Acre reduzindo o índice de analfabetismo para menos de 9%, Jaiza destaca a importância das políticas públicas para esse avanço: “É extremamente importante ter esse olhar diferenciado. As políticas públicas estão acontecendo, proporcionando a superação do analfabetismo”.

O caminho ainda é longo, mas os resultados já começam a aparecer. O investimento, segundo Jaiza, não é apenas no aluno, mas também no professor: “Hoje temos facilidade para os alunos receberem material escolar, e também há formação para os docentes. Na EJA, isso faz toda a diferença”.

Atualmente, a escola atende 161 alunos na modalidade, desde o primeiro segmento até o ensino médio. As aulas começam às 19h e se estendem até as 21h30. “O acolhimento é o coração da EJA”, define a coordenadora.

E resume toda a trajetória da clientela atendida: “Eu admiro muito nossos alunos. Eles vêm de uma jornada de trabalho, deixam família, filhos, às vezes cuidam de avós e ainda assim estão aqui. E a recompensa vem nas formaturas. É o ápice. A felicidade estampada no rosto deles é fantástica”.

A redução da taxa de analfabetismo, ressalta a governadora, vai além do indivíduo e fortalece o desenvolvimento coletivo do Acre. Foto: José Caminha/Secom
A redução da taxa de analfabetismo, ressalta a governadora, vai além do indivíduo e fortalece o desenvolvimento coletivo do Acre. Foto: José Caminha/Secom

Inclusão social

A redução do analfabetismo no Acre representa um marco significativo para o desenvolvimento social e educacional do estado, avalia a governadora Mailza Assis ao analisar os números e os efeitos das políticas voltadas para a área.

“Quando mais pessoas aprendem a ler e escrever, ampliam-se as oportunidades de acesso ao conhecimento, ao mercado de trabalho e aos serviços públicos. A educação é uma ferramenta essencial para promover inclusão social e reduzir desigualdades”, destaca.

Segundo Mailza, esse avanço reflete diretamente na qualidade de vida da população.

“Pessoas alfabetizadas compreendem melhor informações sobre saúde, direitos e deveres, além de conquistarem maior autonomia para tomar decisões no dia a dia. Com mais escolaridade, aumentam também as chances de conseguir empregos melhores e alcançar renda mais elevada.”

Os benefícios, ressalta a governadora, vão além do indivíduo e fortalecem o desenvolvimento coletivo do Acre.

“Uma população instruída contribui para o crescimento econômico, para a participação cidadã e para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. É um fator essencial para o bem-estar e o progresso de todos os habitantes”, conclui.

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