A morte de Douglas Ferreira da Silva, de apenas 28 anos, não expõe apenas mais uma tragédia no trânsito de Porto Velho. Ela escancara, de forma cruel, a falência do poder público diante da vida — e também da morte. O jovem perdeu o controle da motocicleta, colidiu com árvores no canteiro central da avenida Guaporé e morreu. Até aí, um drama infelizmente recorrente. O revoltante veio depois: seu corpo permaneceu por horas estendido no asfalto, aguardando remoção, porque o IML não tinha veículo disponível.
Não se trata de um detalhe burocrático. É desumanidade. É desrespeito com a família, com os amigos e com o próprio falecido. Um corpo esquecido no asfalto simboliza um Estado que chega tarde — quando chega. Nenhuma justificativa operacional apaga o constrangimento, a dor e a indignação de quem foi obrigado a esperar, à vista de todos, pelo mínimo: dignidade.
Essa cena dialoga diretamente com outra estatística alarmante: a violência que mata todos os dias em Rondônia. O trânsito segue fazendo vítimas, especialmente motociclistas, os mais expostos à imprudência, à desatenção e à falta de fiscalização eficaz. Mas a tragédia vai além das ruas. Ela invade casas, famílias e relações íntimas.
Rondônia fechou 2025 com 25 feminicídios — o maior número já registrado no Estado. Em três anos, 64 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Os números colocam Rondônia entre os estados mais violentos do país nesse crime hediondo, com uma taxa muito acima da média nacional. São dados que envergonham, alarmam e exigem ação imediata.
Feminicídio não é estatística fria. É o resultado de uma cultura de violência, omissão, machismo e falhas sucessivas na prevenção, proteção e punição. O crime quase sempre nasce dentro de casa, em ambientes onde o Estado deveria ser presença constante, e não apenas aparecer depois, para contabilizar mortos.
O que une o corpo esquecido no asfalto e as mulheres assassinadas é a mesma ausência: a do poder público eficiente, estruturado e comprometido com a vida. Falta investimento, planejamento, prioridade. Falta respeito.
Diante desse cenário, a sociedade precisa cobrar. Cobrar estrutura para o IML, políticas sérias de segurança no trânsito, campanhas permanentes de prevenção, proteção real às mulheres e punição exemplar aos agressores. Não é aceitável normalizar mortes evitáveis nem tratar a violência como rotina.
Fica, ainda, a pergunta que precisa ecoar nas próximas eleições: Rondônia avançará na representatividade feminina nos cargos de poder? Mais mulheres na política podem significar mais sensibilidade, mais urgência e mais compromisso com políticas públicas voltadas à vida.
Enquanto o Estado falha, Rondônia enterra seus jovens, chora suas mulheres e acumula estatísticas. Isso não é destino. É escolha — ou a falta dela.
Cícero Moura
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