Ler uma história antes de dormir, conversar sobre os personagens ou pedir para a criança imaginar um final diferente podem parecer atividades simples, mas esses momentos têm um papel importante no desenvolvimento infantil. Antes mesmo da alfabetização, o contato com histórias aproxima a criança das palavras, amplia seu repertório e estimula habilidades que serão importantes ao longo da vida escolar.
Apesar disso, a leitura compartilhada ainda não faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Dados do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que apenas 14% das famílias brasileiras participantes afirmam ler com as crianças pelo menos três vezes por semana. A média internacional chega a 54%.
Além de ampliar o vocabulário, ouvir histórias estimula a criança a prestar atenção, acompanhar uma sequência de acontecimentos, entender a relação entre personagens e situações e conhecer diferentes pontos de vista.
"Quando escuta uma história, a criança acompanha o que está acontecendo, guarda informações e começa a entender como os fatos se conectam. Se o adulto faz perguntas, conversa sobre os personagens ou pede que ela conte a história do seu jeito, esse momento também ajuda a organizar as ideias e a desenvolver a forma como ela se expressa", explica Mariana Bruno Chaves, pós-graduada em psicopedagogia e especialista em educação do Kumon.
Para estimular esse contato, não é necessário transformar a leitura em uma atividade longa ou criar uma rotina difícil de cumprir. Segundo a especialista, pequenos momentos do dia já podem aproximar as crianças dos livros e das histórias. "Ler um livro antes de dormir, repetir aquela história de que a criança gosta ou conversar sobre um personagem são formas simples de incluir a leitura no dia a dia. O mais importante é criar oportunidades para que ela tenha contato com a linguagem e também participe desse momento", afirma Mariana.
Essa participação pode acontecer de diferentes maneiras. Perguntar o que a criança achou da história, qual personagem mais gostou, o que aconteceu primeiro ou o que ela acredita que acontecerá depois são exemplos que ajudam a transformar a leitura em uma troca.
"Quando a criança conta uma história com as próprias palavras ou imagina o que poderia acontecer depois, ela precisa organizar o pensamento para conseguir explicar suas ideias. Aos poucos, isso contribui para habilidades de compreensão e comunicação que também serão importantes na escola", explica.
Mesmo quando ainda não sabe ler, a criança já pode criar uma relação próxima com os livros. O contato frequente com histórias permite conhecer novas palavras, perceber diferentes formas de construir uma narrativa e se familiarizar com a linguagem escrita. "A relação com a leitura não começa apenas quando a criança aprende a ler sozinha. Ela pode ser construída muito antes, por meio das histórias que escuta e das conversas que surgem a partir delas. Essas experiências ajudam a ampliar o repertório e criam uma base importante para as próximas etapas da aprendizagem", conclui Mariana.
A especialista ressalta ainda que o desenvolvimento da leitura acontece de forma gradual, passando pelo contato com os textos e avançando para a compreensão e, posteriormente, para habilidades mais complexas, como o pensamento crítico: "Hoje, quando falamos que não se lê muito, também precisamos pensar na qualidade dessa leitura. É claro que precisamos ler em quantidade, mas também precisamos ler com qualidade. A leitura evolui passo a passo: primeiro, aprendemos a ler e, depois, a compreender o que lemos, identificando quem fez o quê, como e onde e entendendo as informações básicas de um texto. Não adianta apenas ler, é preciso entender o que se lê. Esse é o ponto fundamental".
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